Onde está a tirania,
aí está a tirania,
não só nas espingardas,
não só atrás das grades,
não só nas salas de interrogatório,
não só noite de vela,
ou na voz da sentinela,
aí está a tirania,
não só na noite de fumo,
na inflamada acusação,
não só na confissão,
no morse dos toques na parede,
não só na sentença fria
do juiz que culpados pronuncia,
aí está a tirania,
não só na militar
ordem de «fogo» ou de «sentido»,
no rufar do tambor
e no modo como o corpo
para a cova é sacudido,
não só nas novidades
apenas sussurradas
pelas frestas das portas
antes de fechadas,
no dedo sobre a boca
para bocas caladas,
aí está a tirania,
não só nas rugas, grades
construídas nas caras,
e dentro dessas grades
os gritos sem palavras,
nas torrentes roladas
de lágrimas caladas
que aumentam o silêncio
e nas pupilas opadas,
aí está a tirania,
não só nos fortes vivas
berrados perfilados
com hurras e canções,
onde está a tirania,
aí está a tirania,
não só nas próprias mãos
que mornas aplaudem,
na trombeta, na ópera,
também na retumbante
e mentirosa pedra das estátuas,
nas cores, nas galerias,
dentro das molduras,
mesmo já nos pincéis;
não só no som dos carros
rastejando na noite
silenciosa, e como param
à porta;
onde está a tirania,
tangivelmente está
em tudo,
como nem dantes o teu Deus;
aí está a tirania,
nos jardins infantis,
nos conselhos do pai,
nos sorrisos da mãe,
no modo de a criança
responder a um estranho;
não só no arame farpado,
não só nas linhas do livro,
nos slogans que enlouquecem
mais que o arame farpado;
aí está ela, está
no jogo das escondidas,
como quando a mulher diz
quando voltas meu querido;
nos tão habituais
olá-como-vais,
nos apertos-de-mão
de súbito mais moles,
onde repentinamente
gela a cara que amas,
porque ela está presente
nos encontros, nas camas,
não só no interrogatório
mas na confissão,
nas palavras doces
como mosca no vinho,
porque nem nos teus sonhos
estarás sozinho,
aí no leito nupcial
e já antes do desejo
porque só achas bela
a que já era dela;
com ela te deitavas
e pensavas que amavas,
no prato ou no copo,
está no nariz e na boca,
no frio e no escuro,
ao ar livre e na tua toca,
como se pela tua janela aberta
entrasse um cheiro a podre,
como se houvesse em casa
uma fuga de gás,
quando falas contigo
quem pergunta é a tirania
e nem no que imaginas
tens autonomia,
já a via láctea parece
fronteira de holofotes
e de campos de minas:
a estrela é um postigo,
do céu a tenda vasta
é um campo de trabalho;
porque a tirania fala
de febres e de sinos,
do padre da confissão,
do padre do sermão,
igreja, parlamento,
cadafalso – palcos são;
mal fechas os olhos
e sempre ela te guarda;
anda sempre contigo
qual doença ou memória;
ouves o rolar do comboio
que repete «estás preso»;
na montanha ou na praia
é o ar que respiras;
no relâmpago reluz,
no som inesperado,
está em cada luz,
no coração que bate;
na tranquilidade,
no tédio das algemas,
na chuva que desaba
qual grade até ao céu,
na neve que te cerca
como o branco da cela;
é ela que te olha
pelos olhos do teu cão,
e como em cada meta
estás nas tuas manhãs,
estás nos teus pensamentos,
em cada gesto teu;
como o rio em seu leito
nela segues e a crias;
olhas para fora e ela
é que te vê no espelho,
ela espreita, não corras,
és preso e carcereiro;
no cheiro do tabaco,
no tecido da roupa
ela vai-se entranhando
e entra-te nos miolos;
julgas ter uma ideia
mas cada ideia é dela,
podes olhar mas vês
só o feitiço dela,
e o fósforo que atiraste
sem antes o pisares
pode atear no bosque
um fogo que te cerca;
ela assim te vigia
no trabalho e em casa;
e não sabes que é viver,
que é carne ou que é pão,
que é amar, desejar,
ou só abrir os braços,
assim fabrica o escravo
as correntes que arrasta;
se comes, a engordas,
para ela geras filhos,
onde está a tirania,
cada qual é um elo,
tu fedes ao seu cheiro,
tu mesmo és tirania;
como a toupeira ao sol,
é cega a escuridão,
temos medo no quarto
qual se fosse o deserto;
porque onde está a tirania
tudo se torna vão,
mesmo esta fiel canção,
ou tudo o que se cria,
porque ela está
na tua campa já,
quem tu foste dirá,
a ela serve a tua cinza lá.
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