O Diabo antigo


Do Oriente veio em manto de púrpura
na aurora primordial das rimas.
Com ébrio prazer veio, a cavalo,
com seu instrumento, cantando,
sentou-se ao lado o Diabo antigo.

Rude jovem, canta-me ao ouvido,
bebemos, bebemos e eu escuto.
Em longas filas albas deslizam,
vermelhas, e à minha janela
elas batem, embriagadas.

Do Santo Oriente a felicidade
perdida, este infame presente
e o futuro-bruma atraente
dancam sobre uma mesa ébria,
e luta comigo o Diabo antigo.

Numa ruim jaqueta eu cabeceio,
púrpura sobre o Diabo antigo.
Crucifixo, duas velas, dor.
Grande e sem fim triste torneio,
e o vinho espalha-se na mesa.

Desde os velhos tempos babilónicos
luta comigo o Diabo antigo.
Esteve lá talvez um avô devasso
e desde então é meu cumplice,
meu pai, meu deus, imperador.

Bêbedo Apolo de rosto irónico,
seu manto cai, espera o cavalo,
mas segue o baile e o torneio ruge.
Na mesa de sangue coberta,
o corpo ora vai, ora vem.

«Senhor, meu companheiro benévolo,
deixa-me ir, pesa-me a cabeça.
Já tive coisas boas de mais,
muitos vícios, noites, desejos,
meu pai, já tive assaz de amor.»

Comendo, dou-lhe a lira quebrada,
o quebrado coração, e ele ri.
Veloz vai, vem, corre a Vida sob
nossa canora, em sangue e ébria,
santa janela de taberna.

«Senhor, luta com outro, a alegria,
para mim, não é alegria.
Fama e ebriez são enxaquecas.
Em torpes sonhos se gastaram
as soberbas garras de leão.

Senhor, meu torrão é o torrão húngaro,
seco e estéril. Que quer teu grande
incitamento à embriaguez?
Que vale de vinho sacrifício,
de sangue? E o homem, se é húngaro?

Senhor, sou pobre servo errante,
um grande louco consumido,
porquê beber até rebentar?
Não tenho dinheiro, esfumou-se
a fé, perdi a força, morro.

Senhor, tenho mãe: santa mulher.
Tenho Leda: bendita seja.
Tenho um par de clarões dos meus sonhos,
um, dois adeptos. Sob a alma,
um grande pântano: o horror.

Haverá mesmo, talvez, um, dois cantos,
uma ou duas canções lascivas,
grandes e novas, mas quero cair,
eis, sob a mesa, na ebriez
deste torneio primitivo.

Senhor, deixa ir teu servo triste,
nada existe, só a Certeza,
a primitiva Certeza, a ruína
certa, não me encantes, embriagues,
batas. Senhor, não bebo mais.

Sinto náuseas, grande repugnância,
o corpo cansado e doente.
Pla última vez á tua frente
me inclino e o copo deito ao chão.
Senhor, eu a ti me submeto.»

E vejo como salta a cavalo,
me bate no ombro, ri muito,
e cantos pagãos, albas alegres,
ventos ardentes embruxados,
transportam-no para a distancia.

Voa de Oriente para Ocidente,
pra novos torneios pagãos
corre, e eu, de crucifixo, copo
partido, corpo frio, alegre
e hirto caio sob a mesa.


作者
翁德雷·厄岱

译者
Ernesto Rodrigues

来源

Âncora Editora, Lisboa;Antologia da Poesia Húngara


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