Última Realitas


Eu sei, eu sei, também tu te envergonhas um pouco
porque eu não escrevo como o fazem os verdadeiros cantores,
e por vezes eu próprio me envergonho
de falar assim, de um modo tão banal,
de mencionar sempre assuntos quotidianos
e não o apocalipse, o paraíso, o inferno.
Quando leio os outros, admito-o, invejo-os
pela abundância, pela densidade dos seus poemas:
desordem bárbara, sortilégio verbal: neles rodopiam
o reino sombrio dos antepassados, a galáxia dos modernos,
o referencial dos mitos, as deflagrações atómicas
– são coisas, confesso, em que penso raramente.
Se afloram o meu espírito, afasto-as com rapidez;
sei que nunca me faltará tempo para elas.
Também sei, é certo, que me encontro cercado
pelo Hades, a ilha dos mortos, o insípido reino dos monstros.
É inútil que o descrevam com elevado engenho,
será sempre o velho circo do meu aborrecimento,
a antiquada, grandiosa e macabra melodia,
as existências subterrâneas, as transcendências,
essas coisas que apenas me fazem bocejar,
velhos cacos da mitologia aquecidos em banho-maria.
Evidentemente, conheço-me, eu próprio vivi o momento
em que a harmonia dos dados me tocou o coração e a mente,
a certeza gritante de que algures, de algum modo,
correm sete círculos de água negra e se abre
a goela do Seol deserto.
Ocasionalmente a lava dos infernos também jorrou em mim,
assim como fui ocasionalmente o flautista de Thanatos
chicoteado pela chuva num jardim nocturno.
Às paisagens vertiginosas de um mundo ante-diluviano
adaptava-se a vacilante visão cósmica da física moderna,
a ideia de que a vibração da matéria
– essa sólida massa emergente das dúvidas –
é devida à gravitação selvagem de cargas eléctricas,
é a relação da incerteza das radiações,
a ideia de que a solidez é pura coincidência,
que as certezas, os factos que acreditamos tocar
são apenas fórmulas, intersecções de linhas universais.
Causas e efeitos, a procura ardente, foram
abafados pelo jardim dos demónios, a longa noite das origens,
mas para mim é o mesmo, o ovo cósmico ou o átomo explosivo,
sinto-me oprimido entre velhas e novas mitologias,
estou-me nas tintas para o imutável, o eterno,
que um dia me absorverá, reduzido a iões;
para o ser inexistente, o negro ídolo ancestral.
Para mim o milagre é o que me trouxe aqui, na luz fugidia,
milagre é o que se esvai, que perdura um instante,
o que não existiu, não existirá e muda icontinuamente,
a febre quotidiana, abaixo dos trinta e sete, que garante
a sobrevivência, a diversidade, a realidade,
essa última realitas,
o que aparece e desaparece, o que se já esteve não voltará,
o que depois dos iões nem o Senhor dos mundos poderá recriar.


作者
Vas István

译者
Egito Gonçalves

来源

Porto, Limiar;Poetas Húngaros


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