Inverno


Está gélida e soturna a terra. E vê-la-ás tanto mais fria, ainda, quanto
mais lentamente girar
Para a nebulosa de Orion. Roça as suas delícias, também poeirentas, frias.
E imagina: tudo vai ter mais poeira ainda. Na eternidade o mundo será
mais cinzento, – assim a rigidez
Submergirá a essência das coisas, penetrará, e até o pó que
Reinará sobre tudo…

Mas avança! Imagina agora, mesmo, que ela, completamente gelada, imóvel e
exausta pelo seu percurso se extinguiu,
Sobre ti troveja a tempestade do Apocalipse, em que
Esta pérola gelada voará como urna ave seca.
O vento percute-a, o vento em turbilhão percute-a, afunilado como uma
tempestade impetuosa;
E nas rajadas do ciclone ela esvoaça e secamente bate e bate.

Depois, imagina que eu me movi, agarra o calor do meu coração,
E compreende o que outrora fui, cantei, e quais as melodias.
Como os torrões negros da terra, emerso
Da minha noite profunda, com o rosto empalidecido, diante do sol, sob a luz…

Deixo fluir os hinos que compus para ti – e gritei.
E sobre ti depus os meus olhos amargurados: desesperada eternidade!

Sim, foi aqui o combate dos galos, foi este! Ainda recordo!
Dois torrões que ressuscitaram e se arremessavam
Um contra o outro, milhões, aos pares, que se defrontavam para tombarem
de súbito;
Por vezes fitavam-te: eram impenetráveis! – e gritaram:
eis o impenetrável! E os seus olhos rodavam no sangue.
Exorbitavam de terror… Era a cintilação, a tremura febril – alma,
órfã peregrina,
Peregrina do pó – lentamente afasta-te daqui, é o que eu desejo.
Não vejas essa cintilação. Espera.
Até que de novo nos encaminhemos algures e o manto cinzento da
tempestade de pedras
Nos venha sepultar e encobrir.


作者
米蘭·富斯特

译者
Fiama Hasse Pais Brandão

来源

Poetas húngaros. Porto : Limiar, 1991. p. 38.


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