Quando o pastor, o lavrador
raízes não têm já
no tempo do fenol e da buzina,
o único que tem já raízes
és tu, escarnecido sem parar,
quem é sempre o outro, nunca eu:
escarneço-te eu também? Cantara,
antes, para ti, só aos teus ouvidos,
mas como minha loa chegaria a ti?
pois mostras a casa do vinho:
aí se acotovela a severa besta;
e se a remetes ao destinatário,
eu aceito-a,
mas cantarei ao espelho?
Não com escárnio, com generosa
alma te falo,
única realidade humana viva
no nosso tempo, nova nobreza!
Teu brasão é o automóvel, o Rato Mickey tua bandeira,
tua palavra de ordem adquirir o que ainda não tens,
é a espada teu cotovelo reluzente,
tua planta dos pés que pisa;
herdeiro dos cavaleiros de antanho, tu,
o que quer, o que conquista,
quando, face à larga existência, não se pode,
através das curvas de possibilidades restritas.
Confesso-te, já na minha infância
me atraías: tua vontade, tua força,
na densidade de objectos e instrumentos.
Mais do que meu cortejo de sonolentos
cãezinhos fofos,
ou pesados camponeses
em ritmo compassado:
tu me assombraste, desertei
para os Fulanos, Maganos,
Beltranos e Sicranos: tu nunca estás inactivo,
magicas sempre qualquer coisa,
não olhas para a lua, ou, se sim,
é sentindo a música do gramofoné;
ai, que colorido és! só pompas, motores
á tua volta, e teu espírito boémio
assombra o sexo oposto,
quando fazes das tuas, andam mosquitos por cordas,
mas tens bom coração, como mais ninguém,
só se te ofendem na dignidade,
ui! qual mau?! não há nenhum
homem no mundo assim maravilhoso.
Inventas como Fausto,
conquistas como Casanova,
e também és Byron, poeta subjectivo,
quimera pura, imaginação solta,
em cantos, piadas, tristezas,
derramas tua própria grandeza!
Tu és a alma lírica;
nos poetas de profissão
não há rasto de poético.
Visitei Ungaretti,
Babits, Eliot:
recebeu-me um carinho fresco e puro,
sem adornos, aborrecido.
Mas em todas as casas o porteiro
fez roncar o motor,
teve duas ou trés esposas,
entre cinco e dez amantes,
dívidas terríveis,
e, á noite, embebedava-se,
e chorava, por estar sem ninguém,
sem nada, no insensível
mundo infinito!
A ti me submeto. Não te escarneço: invejo-te.
E pois minha inveja a ti me subordina,
de ti e do teu presente,
embora parcamente, também eu lucro.
Tu: eu sou. Mas onde o outro, o terceiro?
Outrora, Göcsej, província toscana,
começou sempre na aldeia vizinha.
Quando quero falar-te,
só para mim posso voltar-me,
entre muitos milhões de indivíduos geniais,
o único pequeno-burgués no mundo.
1956
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