Poesia de Inverno


I
Poesia de Inverno: poesia do tempo sem deuses
Escolha
Cuidadosa entre restos

Poesia das palavras envergonhadas
Poesia dos problemas de consciência das palavras

Poesia das palavras arrependidas
Quem ousaria dizer:

Seda nácar rosa

Árvore abstracta e desfolhada
No inverno da nossa descrença

II
Pinças assépticas
Colocam a palavra-coisa
Na ilha do papel
Na prateleira das bibliotecas

III
Quem ousaria dizer:

Seda nácar rosa

Porque ninguém teceu com suas mãos a seda – em longos dias em
compridos e com finos sedosos dedos

E ninguém colheu na margem da manhã a rosa – leve e pesada faca
de doçura

Pois o rio já não é sagrado e por issonem sequer é rio

E o universo não brota das mãos dum deus do gesto e do sopro dum
deus da alegria e da veemência dum deus

E o homem pensando à margem do destino procura arranjar licença
de residência na caserna provisória dos sobreviventes

IV
Meu coração busca as palavras do estio
Busca o estio prometido das palavras


作者
索菲娅·安德雷森

来源

https://poetisarte.com/autores/sophia-de-mello-breyner-andresen/poesia-de-inverno/


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