Tanguinho macabro


– Maricota, sai da chuva
Você vai se resfriar!
Maricota, sai da chuva
Você vai se resfriar!
– Não me chamo Maricota
Nem me vou arresfriar
Sou uma senhora viúva
Que não tem onde morar.

– Maricota, sai da chuva
Você pode até morrer!
Maricota, sai da chuva
Você pode até morrer!
– Pior que a morte, seu moço
É ser moça e não poder
Mais morta que estou não posso
Tomara mesmo morrer.

– Maricota, vem comigo
Para o meu apartamento!
Maricota, vem comigo
Para o meu apartamento!
– Fico muito agradecida
Pelo generoso intento
E sem ser oferecida
Aceito o oferecimento.

– Maricota, meu benzinho
Tira o véu para eu te ver!
Maricota, meu benzinho
Tira o véu para eu te ver!
– Ah, estou tão envergonhada
Que nem sei o que dizer
Só mesmo a luz apagada
Poderei condescender.

– Maricota, esse perfume
Vem de ti ou de onde vem?
Maricota, esse perfume
Vem de ti ou de onde vem?
– É o odor que se tem na pele
Quando pele não se tem
É o meu cheirinho de angélica
Que eu botei só pro meu bem.

– Maricota, dá-me um beijo
Que eu estou morto de paixão
Maricota, dá-me um beijo
Que eu estou morto de paixão
– Satisfarei seu desejo
Com toda a satisfação
Aqui tem, seu moço, um beijo
Dado de bom coração.

– Maricota, os seus dois olhos
São poços de escuridão!
Maricota, os seus dois olhos
São poços de escuridão!
– Não são olhos, são crateras
São crateras de vulcão
Para engolir e et cetera
Os moços que vêm e vão.

– Maricota, o teu nariz
São duas fossas de verdade!
Maricota, o teu nariz
São duas fossas de verdade!
– Não é nariz não, mocinho
É uma grande cavidade
Para sentir o cheirinho
Dessa sua mocidade.

– Maricota, a tua boca
Não tem lábios de beijar!
Maricota, a tua boca
Não tem lábios de beijar!
– Não é boca, meu tesouro
É um sorriso alveolar
São quatro pivôs de ouro
Presos no maxilar.

– Maricota, tuas maminhas
Tuas maminhas onde estão?
Maricota, tuas maminhas
Tuas maminhas onde estão?
– Estão na boca de um homem
E do seu filho varão
Maminhas não eram minhas
Eram coisas de ilusão.

– Maricota, que engraçado
Onde está seu buraquinho?
Maricota, que engraçado
Onde está seu buraquinho?
– Buraco só tenho um
De sete palmos neguinho
Mas é melhor que nenhum
Pra caber meu amorzinho.

– Maricota, estou com medo
Estou com medo de você!
Maricota, estou com medo
Estou com medo de você!
– Não se arreceie, prometo
Que nada tens a perder
Mais vale amar um esqueleto
Que uma mulher, e sofrer.

E a Morte levou o moço
Para o fatal matrimônio
Deu-lhe seu púbis de osso
Sua tíbia e seu perônio
Diz que o corpo decomposto
De manhã foi encontrado
Mas que sorria o seu rosto
Um sorriso enigmático.


作者
维尼修斯·德·莫拉埃斯

来源

https://poetisarte.com/autores/vinicius-de-moraes/tanguinho-macabro/


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