(RECITATIVO PARA O PIANO)
LEMBRAS-TE ainda dessa noite bela
Em que, donzela, te chegaste a mim?
Lembras-te? Dize… mas não tenhas pejo…
Que vai um beijo pra corar assim?…
………………………………….
Que linda noite! da montanha o vento
Tênue lamento suspirava então.
E nos teus lábios, no tremor, no medo
Lia o segredo de febril paixão.
Passava a lua pelo azul do espaço
Do teu regaço a namorar o alvor.
Como era terna no seu brando lume.
…Tive ciúme de ver tanto amor …
Como dum cisne alvinitentes plumas
Iam de brumas a vagar nos céus,
Gemia a brisa — perfumando-a a rosa —
Terna, queixosa nos cabelos teus.
Que noite santa!… Sempre o lábio mudo
A dizer tudo, a respirar paixão;
De espaço a espaço um fervoroso beijo,
E após o pejo… e algum frouxo não.
Eu fui a brisa — tu me foste a rosa,
Fui mariposa — tu me foste a luz,
— Brisa — beijei-te — mariposa — ardi-me.
E hoje me oprime do martírio a cruz.
E agora quando da montanha o vento
Geme um lamento de infinito amor,
Busco debalde tescutar as juras…
Não mais venturas… só me resta a dor.
Seria um sonho aquela noite bela?
Dize, donzela… Foi real… bem sei!…
Ai! não me negues, diz-mo a lua, o vento,
Diz-mo o tormento que por ti penei!…
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